Estado : Nomadismo :: Teoria : EtnografiaA sobrecodificação do estado sobre os trabalhadores nômades parece ser comparavel às explicações que se impõem na descrição etnográfica. como disciplina proxima dos nômades, assim, evitar que pensem por nós, aparece como condição básica para possibilitar uma antropologia. O pensamento do fora na antropologia, parece então ser aquele que dialoga por sua vez com um pensamento também de fora, e a etnografia o espaço onde esses dois pensamentos se encontram. pensar por nós mesmos, na antropologia, não parece ser outra coisa que descrbir-permitir-dialogar-ouvir-percibir o pensamento (a experiencia, a ontologia, a percepção) dos outros, como forma em que na nossa "ciência" aparece o pensamento do fora, o das máquinas de guerra... por isso a antropologia é afim aos que Roque Dalton -poeta de El Salvador- dedica seu "poema de amor". Eis o poema: Los que ampliaron el Canal de Panamá (y fueron clasificados como "silver roll" y no como "gold roll"),/ los que repararon la flota del Pacífico en las bases de California,/ los que se pudrieron en la cárceles de Guatemala, México, Honduras, Nicaragua,/ por ladrones, por contrabandistas, por estafadores, por hambrientos,/ los siempre sospechosos de todo ("me permito remitirle al interfecto por esquinero sospechoso y con el agravante de ser salvadoreño"),/ las que llenaron los bares y los burdeles de todos los puertos y las capitales de la zona ("La gruta azul", "El Calzoncito", "Happyland"),/ los sembradores de maíz en plena selva extranjera,/ los reyes de la página roja,/ los que nunca sabe nadie de dónde son,/ los mejores artesanos del mundo,/ los que fueron cosidos a balazos al cruzar la frontera,/ los que murieron de paludismo o de las picadas del escorpión o de la barba amarilla en el infierno de las bananeras,/ los que lloraran borrachos por el himno nacional bajo el ciclón del Pacífico o la nieve del norte,/ los arrimados, los mendigos, los marihuaneros,/ los guanacos hijos de la gran puta,/ los que apenitas pudieron regresar,/ los que tuvieron un poco más de suerte,/ los eternos indocumentados,/ los hacelotodo, los vendelotodo, los comelotodo,/ los primeros en sacar el cuchillo,/ los tristes más tristes del mundo,/ mis compatriotas,/ mis hermanos. claro que a listagem está longe de terminar nesse ponto... Nixon e um garoto em Woodstock: o amor, a antropologia e a recusa do Estado...falar de antropologia política é um truísmo. Toda antropologia é política. Ou melhor, há uma ação política possível subjacente a toda reflexão antropológica, assim como uma antropologia imanente a toda e qualquer ação política. Qual possibilidade de ação política contida na idéia de uma antropologia simétrica? Se a antropologia (nem toda, é claro) é contra-estatal no pensamento, ou seja, em sua busca de imanência conceitual entre 'Eu' e 'Outro', não o deveria ser também em qualquer parte? E aí não há como não relacionar a antropologia a uma série de movimentos ou formações sociais contra-estatais, desde sociedades indígenas que recusam a idéia de representação ou de centralização política, aos movimentos anarquistas os mais variados e, em particular, a Woodstock. Woodstock foi o que de mais radical aconteceu nas décadas de 60 e 70 em termos de ação política. Radical porque era a única ação política que propunha uma recusa do poder. Em determinado trecho do famoso documentário de Michael Wadleigh (1970) sobre o célebre festival, um jovem do interior dos EUA, ao ser perguntado se gostaria de enfrentar Nixon num debate (ou algo do gênero), responde simplesmente: “não!” O interlocutor insiste: “mas você não acha que é preciso enfrentá-lo para derrotá-lo?”. O rapaz responde mais ou menos assim: “eu estou aqui, curtindo minha música, e Nixon não pode vir me perturbar aqui...” Está tudo aí. A pergunta do documentarista (talvez apenas provocativa) traduz um determinado modo de confronto: ela reflete a tradicional arena política do confronto de idéias, sendo que seria preciso enfrentar Nixon nesses termos, em termos de poder político. Enfrentá-lo significava, de algum modo, tomar-lhe o poder. O jovem hippie, evidentemente, também estava enfrentando Nixon, só que em outros termos. Sua batalha não consistia em derrotar Nixon, ou em tirá-lo do poder mas, algo muito mais radical, em recusar-lhe qualquer tipo de relevância naquele espaço. Woodstock era um espaço de "paz, amor e música", e Nixon - que, possivelmente, não era muito chegado a essas coisas - não tinha nada o que fazer ali. O jovem tinha extirpado Nixon de sua própria alma, o que é uma ação política que poucos parecem dispostos a empreender. A ação política expressa na frase do jovem - que, de certa forma, sintetiza algo do espírito do festival como um todo (assim como, por exemplo, o hino americano magistralmente distorcido por Jimi Hendrix) - é ainda mais significativa se pensarmos o quão ridicularizada e esvaziada foi esse tipo de postura nas décadas seguintes, tanto pela direita conservadora, em nível mundial (M. Thatcher, Reagan, Bush, os yuppies etc.), quanto pela esquerda - esta de orientação marxista e materialista, que acusava o chamado “movimento hippie” de “desbunde”, de “fuga”, de “alienação”, e outras palavras de baixo calão que lhes viessem à mente...Nixon, os yuppies de Wall Street, os partidários da esquerda marxista, achavam (acham ainda) que os hippies eram apenas maconheiros, idiotas ou fracos. Maconheiros eram sim, com orgulho...mas idiotas e fracos, é pouco provável. A bem da verdade, os críticos do movimento hippie parecem ter sentido, de algum modo, que aquilo ali era uma verdadeira ameaça. É impressionante como pregadores de paz e amor são insuportáveis ao mundo da política oficial internacional...De algum modo (e por uma estranha coincidência), eles sempre são tirados de cena – John Lennon, Ghandi, Martin Luther King. Por que o movimento hippie era uma ameaça? É que ele recusou, de um só golpe, todos os termos em que se colocavam os debates políticos da época: recusou a disputa pelo controle do Estado, recusou a idéia de centralização do poder, recusou o ódio – o que, vale lembrar, não é pouco –, recusou a economia de mercado e toda valorização prática e ideológica da mercadoria, recusou as formas tradicionais de organização familiar e parentesco, recusou o materialismo e o racionalismo arrogantes da tradição filosófica ocidental (aproximando-se de filosofias, religiões e pensamentos de outras partes do mundo, de grupos minoritários etc.), recusou as fronteiras do tipo Estado-nação e a ideologia de sedentarização psico-socio-espacial derivada destas etc. e, o mais importante, havia nesta recusa algo de molecular e não-totalizador. Os hippies não pareciam querer derrotar seus adversários e impor todas essas recusas a quem quer que seja. Eles pareciam mais bem querer acolher quem se decidisse, por vontade própria, experimentar um outro mundo possível. Não há pauta em Woodstock, não há doutrina, não há plataforma política, não há diretrizes...Como na canção de Bob Marley, “none but ourselves can free our minds”. A antropologia imanente ao movimento hippie, em suma, é uma na qual uma humanidade comum precisa ser feita, e ela não será feita por decreto, mas por meio de relações sociais gradativamente polidas e aperfeiçoadas. Ecos do tipo de acusação ao movimento hippie se fazem ouvir atualmente – quando da época das eleições, sobretudo direcionada aos partidários do “voto nulo”, aos anarquistas, com o argumento de que o anarquismo é uma idéia ultrapassada e utópica (como se idéias pudessem ser ultrapassadas como matéria inerte ou tivessem prazo de validade), a todos os tipos de esotéricos e místicos – que estariam, mais uma vez, “fugindo” da realidade, refugiando-se em um emaranhado de mentiras. Uma declaração como a do jovem de Woodstock seria, provavelmente, taxada de egoísta ou escapista. Parece que, independente de esquerda ou direita, as idéias vencedoras no mundo foram mesmo a da luta pelo poder, da representação política (falar em nome de...), da materialidade absoluta da existência e, infelizmente, a do ódio e da violência. Citando o pensador anarquista P. Lanborn Wilson, diria que o problema não vem mesmo nem da esquerda, nem da direita, nem do centro...ele vem de cima. Mais grave ainda, a antropologia implícita a essas idéias dominantes parece ser a de uma humanidade incapaz de se relacionar espontaneamente, que precisa ser disciplinada, dirigida, cujas relações carecem ser mediadas por alguma entidade centralizadora (seja totalitária, seja democrática, seja religiosa, seja científica etc.). As pessoas, como diria La Boétie já no século XVII, parecem ter mesmo uma pulsão de obedecer, uma necessidade intrínseca de autoritarismo. Sobre o “voto nulo”, por exemplo. É curioso como alguns costumam chamá-lo de voto irresponsável (poderíamos dizer, como os anti-contra-cultura, “voto alienado”, “voto desbundado”, “voto covarde” etc.). Aí, mais uma vez, diversas opiniões e correntes parecem convergir para uma idéia comum de política, de representação, de responsabilidade etc. A grande mídia resume bem essa idéia comum quando convoca a todos para o tão alardeado “exercício da cidadania”. É como se, fazendo todos a sua parte, o todo será completa e adequadamente composto: “Vote, você é responsável pelo país!”. Mas alguém já parou para pensar que recusar esse “todo” – o país, a nação, o Estado nacional – é uma alternativa política perfeitamente válida? Mais ainda, será que a idéia de ser responsável pelos outros não é uma idéia de controle? Quem impõe esse tipo de responsabilidade? Acreditar, por exemplo, que as pessoas são capazes de ser responsáveis por si próprias seria uma espécie de aberração? Ser responsável pelo próximo é o avatar negativo da idéia cristã do “Amai-vos uns aos outros!”. É uma leitura estatal, transcendentista e direta desta máxima. Claro, dirão, há uma cabeça por trás da frase, há a voz por trás da frase, a voz, justamente, que dá existência, por assim dizer, acústico-material à frase. É Deus quem diz isso. Deus é a figura transcendente desta formulação. Deus é o Estado. Aqueles que devem ser responsáveis pelo próximo, por sua vez, são os assim chamados atualmente de cidadãos. O cidadão é o Estado em escala reduzida, o cidadão é um súdito do Estado, ele é feito da mesma matéria deste. Um único cidadão é responsável pelos demais cidadãos, porque, acima deles todos, é o Estado quem é responsável por eles. Os hippies, de certa forma, aproveitaram muito da máxima cristã do “Amai-vos uns aos outros”. Não podemos esquecer que tal máxima foi dita por Jesus Cristo, instrumento da voz de Deus. Acontece que Cristo vivia entre as pessoas falando essas coisas, era um andarilho, um nômade, talvez - quem sabe? - um hippie (o cabelo comprido, a barba...talvez, talvez). Por suas andanças, ele afetava as - e era afetado pelas - pessoas que encontrava no caminho. Nestas relações face a face com os homens, o que sobressaía, mais do que a voz do Deus-todo-poderoso, era a idéia do amor compartilhado. Como dizíamos, os hippies aproveitaram essa idéia, independente da voz que a expressa, assim como Spinoza, eles imanentizaram e dissolveram Deus (Janes Joplin não pediu ao Senhor, como pediria a um amigo, que lhe pagasse uma rodada para provar Seu amor por ela?). Eles aproveitaram, em suma, o amor puro, em potência. É como se suprimissem o agente de enunciação, e o amor, de imperativo, passasse a epidêmico...uma epidemia de amor sem controle, sem centro, sem voz. Um amor liberto de sua enunciação, transmudado em energia pura, livre para todo o tipo de composições e relações. Ou melhor, um amor, ele próprio, cativo das relações que o produzem e que ele produz reciprocamente. Não seria interessante que a antropologia explorasse as idéias liberadas naqueles três dias de 1969, numa singela fazenda de Bethel (NY), em meio a uma purple haze de maconha e LSD? Nós, antropólogos, não deveríamos recusar certas alternativas de disputas político-teóricas, como as que nos exigem verdade, objetividade etc.? Nada mais triste do que, a esta altura do campeonato, querer transformar as pessoas com as quais fazemos nossas pesquisas (sejam “primitivos”, “bárbaros”, ou “civilizados”) em cidadãos. Já basta toda a parafernália ritual utilizada pelo Estado para difundir a cidadania aos quatro cantos, só faltava os antropólogos embarcarem nessa...Espera-se que sejamos responsáveis por (representemos os) "nossos nativos" ou, pior, que estes sejam responsáveis pelo antropólogo, que o representem de algum modo. Quando muito, espera-se que os nativos se representem a si próprios. Meu Deus, a representação será realmente tão necessária? Não bastaria o amor e a alegria? A relação só pode se basear em termos de responsabilidade e direito de representação? Está aí. Há aqueles que gostam de uma antropologia yuppie, outros preferem uma antropologia autenticamente de Estado, há até a antropologia do Partidão...Em suma, uma antropologia hippie tem todo o direito de vir à tona. Assim como os hippies pareciam acreditar na auto-organização e na capacidade relacional das pessoas (em diferentes escalas), não custa nada os antropólogos acreditarem um pouquinho na auto-regulação existencial de "seus" nativos. De resto, é só "Peace & Love"... A propósito da sexta na quinta com Ricardo Kubruslyme permitam uma observação improvisada sem conhecimento sobre o tema a partir da presença e fala de um matemático nos encontros das sextas feiras. Não entendo porque os matemáticos utilizam uma matemática para medir o universo e outra para construir uma ponte. A matemática do infinito renuncia a trabalhar na construção de caminhos? A fractalidade não indicaria que dentro de uma casa, entre as duas margens de um rio e na escala interplanetária é possível (também) medir com um mesmo tipo de régua? A matemática quântica, teórica, metafísica... pode ser também utilizada para pensar a cojuntura? É possível pensar uma antropologia que em lugar de estar no extremo oposto da matemática e do Estado permita ser pensada junto a um outro Estado e outra matemática (dado que ela lida há tempo, por exemplo, com contínuos cheios de buracos e com paradoxos como o da impermanência do mesmo, como a matemática do infinito)?. Essas perguntas são, no fundo, a pergunta pela possibilidade de utilização da matemática do infinito da qual Ricardo falou para pensar nossa vida, nossos problemas cotidianos e pragmáticos e também nossa antropologia (com as outras metafísicas que a povoam). Este comentário talvez se localiza na idéia levistraussiana de uma ciência que bebendo do método do bricoleur se aproxima ao contínuo, e resulta não tanto em um bricoleur bancando de engenheiro que constrói pontes, mas sim em um novo tipo de engenheiro, um pouco bricoleur. e porque a antropologia se encontrou muitas vezes com metafísicas que continham outros Estados, outros modos de administrar e de fazer. A possibilidade de uma matemática do infinito aplicada, permite pensar em outras realidades cosmo-pragmáticas com as quais a matemática euclidiana não é muito precisa (a realidade do mito). Essa matemática também permite pensar na multiplicidade aqui e agora, no nosso mundo “moderno e ocidental”. Nosso Estado poderia implementar políticas públicas para o infinito. Ou o Estado quedaria marginalizado enquanto seriam minorias –e não o governo ou os militares– as que construiriam as pontes, com réguas específicas a cada situação, as tornando assim talvez mais difíceis de cair. desculpem o comentário um pouco ingênuo, mas não consegui deixar de pensar como seria uma ponte feita por engenheiros que não deixem de dar importância ao infinito e não reduzam nunca o risco a zero. (slvdr) A propósito de uma pequena e difundida dificuldade de compreensão conceitualOu, da reciprocidade como propriedade constitutiva (versus regulativa) da socialidade. Ou, não se troca porque se quer, nem porque Alguém mandou. Ou, ninguém troca algos (pessoas ou coisas), mas ondes (posições e relações). Ou, ninguém troca ninguém sem virar outrem:
Durkheim contra o pragmatismoEm Changer de société. Refaire de la sociologie (2006, pp. 158-159), Bruno Latour reproduz o trecho de Durkheim que se segue, sustentando que ele é a "prova mais fascinante da estreita ligação entre a definição da sociedade e a teoria da ciência" - e, eu acrescentaria, a política, seja aquela praticada no Estado, seja a da academia:
Análise conjunturalEste cara cujo nome me escapa, e que escreve um blog chamado k-punk (ref cortesia de Hermano Vianna), é um dos mais interessantes analistas políticos do momento. À parte sua (muitíssimo) relativa simpatia por S. Zizek, camelô lacaniano-leninista de quem tenho horror [como diz o Hermano, Zizek é o Diogo Mainardi global], há pontos que valem reflexão. Comentários bem-vindos. [EVC]
Against immobilization, against nomadology
Brasil e Bolívia - Irmão Maior e Irmão MenorMaybury-Lewis, numa percepção instigante, já tinha notado que as relações políticas Xavante são como relações internacionais e, mais especificamente, em se tratando das facções dominantes de uma aldeia, como relações entre superpotências. É bem conhecida também uma teoria das relações internacionais "ocidentais" que as remete à "anarquia" (Hedley Bull), a qual poderia, de um modo bem fraco e sugestivo, projetar a ONU à condição de um bizarro chefe de aldeia na tradição de Pierre Clastres. Numa defesa de tese recente sobre um povo Jê que tem aparecido na literatura como aproximado aos Xavante - o povo Xerente -, de Ivo Schroeder, sobre parentesco e política, falou-se que a tensão política era mais explosiva e mais "desagregadora" quando ocorrida entre irmãos, o que não era raro. Ficou a impressão de que a tensão entre afins fosse real porém tolerável, enquanto que a entre irmãos fosse um dos principais motivos para a ruptura e para o surgimento de novas aldeias. Agora, dando um salto sumário para o assunto do título: todas essas considerações ecoam, de longe, num discurso um pouco antigo do presidente indígena da Bolívia, Evo Morales, publicado pelo jornal Folha de São Paulo, pinçado para explicar e justificar a notícia política do momento (2 de Maio de 2006): a nacionalização dos campos de exploração da Petrobrás na Bolívia por este país e o conseqüente atrito com o Brasil. Dizia Evo em entrevista àquele jornal, há um ano atrás, antes de ser eleito: "Na Bolívia, nos sentimos como irmão menor do Brasil. Como dirigente sindical e dirigente político, também me sinto como irmão menor do companheiro Lula. Em todo caso, como irmão maior, Brasil e Lula têm de nos guiar para resolver nossos problemas. Não é porque é o irmão maior que nos pode submeter sob seus interesses" Prato cheio para o etnólogo? Um apelo ao idioma do parentesco - entretanto, objete-se, a extensão da irmandade à alteridade é muito mais cristã do que ameríndia. Mas não seria uma tentativa de aproximar-se da perspectiva do outro (do cristão) mantendo-se um aparato possivelmente ameríndio (os irmãos são diferentes: há o maior e há o menor...)? A rede abaeté nos informa que para o pensamento perspectivista "amazônico" a avareza é muito mais imperdoável que o roubo. Já o jornal nos informa que a expropriação da propriedade da Petrobrás é um ato de esquerda, comunista... Ainda que de um estranho comunismo nacionalista - estranho para os socialistas internacionalistas, diga-se. Seria Evo um comunista ou um nacionalista? A patente ruptura que se anuncia entre Bolívia e Brasil, entre Evo e Lula, ao invés de uma relação internacional, parece muito mais uma negação dessa relação, se vista pela ótica da irmandade entre maior e menor, que não comportaria o jogo de interesses nem a propriedade. Evo e Lula não se colocaram como adversários buscando aliança, mas como irmãos em situação de desigualdade, um eficiente e estratégico mal-entendido, que pode finalmente levar ao coerente "roubo" da Bolívia contra o Brasil. Afinal, irmão ávaro, o Brasil não parecia dar muito "em troca" para a Bolívia com sua Petrobrás. Estaria Evo apenas praticando o "comunismo santo" da irmandade, pegando para si o que é do seu irmão, afinal "é tudo nosso"? Ou o gesto representaria uma ruptura com o irmão, e cada um que fique no seu canto, com sua aldeia? Evo parece assim uma incógnita: Um índio presidente? Um comunista nacionalista? "Amazônia" ou "Ocidente"? Fica faltando aqui uma melhor compreensão da importância da ruptura entre irmãos para aqueles cuja perspectiva original não parte de Caim e Adão. --GLJF 21:38, 2 Maio 2006 (UTC)
Internacional: a crise do Irã e a crise do Corinthians(Brincando de tecer redes) Ler o jornal inspirado pelas leituras de Latour pode ser uma brincadeira bem educativa. Quanto ao futebol, não sei o quanto ele ainda é uma brincadeira nem o quanto ele possa ser educativo, mas parece ao menos se tornar cada vez mais um jogo bastante absorvente quando se trata de relações internacionais. Vejam o caso do Irã e do Corinthians. Este famoso time brasileiro está agora sendo praticamente gerido por um iraniano, representante de um grupo internacional que não se sabe muito bem o que é (MSI), associado pelos fofoqueiros de plantão à máfia russa. O Corinthians parece um time de extremos para o coração do torcedor: amado por uns, odiado por outros. Sua torcida organizada é, também segundo os fofoqueiros de plantão, uma das mais violentas do futebol paulista, senão brasileiro, e talvez a mais temida de São Paulo. Aparece constantemente envolvida em brigas e vandalismos, tendo sido responsabilizada pela polícia por um gigantesco conflito (contra a própria polícia...) no último jogo do time no Estádio do Pacaembu, por pouco não causando um incidente internacional (contra o River Plate, time argentino, e contra os chilenos que arbitravam a partida pela copa Libertadores da América!). O Irã também tem uma história atual de amores e ódios, algumas décadas de conflitos intensamente noticiados, primeiro contra o Iraque, dentre outros motivos por ser predominantemente xiita, encontrando-se atualmente em atrito com os Estados Unidos da América. Os Estados Unidos, um pouco através da ONU (se a ONU é um chefe indígena, sabemos que um chefe indígena não precisa ser mesmo dotado de neutralidade axiológica...), um pouco metidos em sua cruzada de democratização forçada do extremo "Outro" huntingtoniano (do "irmão mau" do cristianismo: o islamismo - aliás, irmão mais novo, diga-se), deixando um pouco de lado os "próximos" (parecia não estar mais muito preocupado em libertar a América, pelo menos não até Evo Morales...), acusam o Irã de produzir a bomba atômica, querendo proibi-lo de tal feito quase tanto quanto a CBF queria proibir as torcidas organizadas de futebol, sobretudo a do Corinthians. Os EUA só não têm tido muito sucesso em convencer seus aliados internacionais, sobretudo a Rússia... Há alguma relação entre Kia, o aiatolá e os russos? Seria algum resquício da guerra fria unindo novos actantes herdeiros dos velhos - em vez do partidão, uma "organização não-governamental" familiar? O que a guerra tem a ver com o futebol? O que os xiitas têm a ver com os torcedores do Corinthians? Não sei ao certo, só sei que, no mesmo jornal (talvez até no mesmo caderno), a reportagem de uma das capas era sobre a crise (futebolística, não necessariamente econômica) do Corinthians depois do controle do iraniano Kia e da MSI (e seus prováveis family men russos) e, lá no final de um dos cadernos, outra reportagem tratava do conflito velado entre a influência nacionalista do presidente do Irã no time selecionado de futebol de seu país e a perspectiva despolitizadora do técnico da mesma seleção, que não queria ter nada a ver com isso. Mas será possível não ter nada a ver com isso? Será que os jornalistas não perceberam essa conecção parcial e fizeram a pauta do dia sem querer, ou a edição é o indício de alguma conspiração internacional? Enfim, e a bola, o que teria a dizer a respeito? Relendo o Anti-ÉdipoRelendo o Anti-Édipo, pois estou esboçando uma comparação entre os usos das noções de aliança e de filiacão no AE e no MP, ocorreu-me (doença a que tenho sido muito vulnerável ultimamente) de súbito (pior ainda) que o Édipo de Deleuze & Guattari é “como” a Modernidade de Latour: “notre Œdipe à nous (notre supposé Œdipe à nous)” (AE: 200). Na verdade, ele é ela. Isso talvez ajude a esclarecer a ontologia peculiar implicada na frase “Jamais fomos modernos“. Para não falarmos na conexão entre as máquinas (desejantes) e os híbridos (sociotécnicos): agenciamentos. -evc
E recordo o trecho: “Nous allons trop vite, nous faisons comme si Œdipe était déjà installé dans la machine territoriale sauvage. Pourtant, comme dit Nietzsche à propos de la mauvaise conscience, ce n'est pas sur ce terrain-là que pousse une pareille plante” (AE 195-96). O capítulo SBC me parece pródigo edm indicações sobre o Édipo como uma possibilidade-fantasma (o “limite deslocado”), mas jamais como uma realidade atual no socius selvagem (donde as críticas aos Ortigues, o renvio dos-à-dos dos culturalistas e dos universalistas etc.). O Édipo é sem dúvida universal, diz sem dúvida o AE, e é universal porque é o deslocamento do limite que persegue-assombra todas as sociedades etc. Mas ele pode não estar estrategicamente “ocupado” em todas as formações sociais; para estar, são preciso certas condições etc. (em suma, é preciso que o solo esteja preparado para receber semelhante planta). Vejo isso como algo semelhante às condições para a fabricação paradoxal da Modernidade no JFM, a multiplicação ou proliferação “axiomática” dos híbridos a partir do memomento em que os velhos “códigos” que bloqueavam sua liberação são contornados pela purificação etc. A idéia do JFM como uma espécie de Anti-Édipo da ciência continua a me seduzir. Mas a questão naturalmente não se dirime a golpe de citações aleatórias. É preciso conversar mais. E certamente concordo que o Édipo seria como a Modernidade no sentido se ser uma espécie de “o fantasma do que é preciso conjurar”. Como p.ex. o Estado estaria latente dentro da Sociedade primitiva. E não se sinta, por favor, de modo algum, obrigado a replicar: “de fato, você não entendeu nada”. Pode disfarçar... - evc
Empregar a expressão “não entender” em relação ao AE só pode levar a mal-entendidos (com as devidas desculpas do trocadilho). O problema, claro, é como usar a “coisa” (assim Foucault se refere ao AE), ou seja, como conectá-la com questões que queremos, por alguma razão, pensar. A aproximação com JFM e com a modernidade é boa para pensar, acho. Assim, e por um lado, creio ser perfeitamente possível sustentar que o Édipo é universal; por outro, e sendo evidente que para D&G essa universalidade não é a de uma estrutura fundamental do espírito humano ou fundadora do socius, cabe indagar que tipo de universal é esse. Ora, esse termo aparece no AE quase sempre ligado à noção de história universal, tomada de Marx e entendida como história “retrospectiva, contingente, singular, irônica, crítica, descontinuísta”. Nesse sentido, Édipo só é universal porque corresponde à forma histórica de descodificação dos outros regimes. Da mesma forma, o Estado (vetor de sobrecodificação) só pode ser dito universal -- e aqui D&G se afastam de Clastres -- porque vem depois, por mais estranho que isso possa parecer. Seria possível pensar no JFM levando isso em conta? A “modernidade” -- quer dizer o fantasma da separação natureza/cultura (sobrecodificação) e a produção desenfreada de híbridos (ou seja, descodificação) -- poderia, talvez, ser pensada simultaneamente como histórica e sempre já lá? Se, como escreveu Koyré, “somos sempre os modernos de alguém”, creio que sim! E que os dois livros poderiam se chamar “Jamais fomos (inteiramente) modernos” e “Jamais fomos (inteiramente) edipianos”. Porque só assim poderíamos escapar dessas condições sem imaginar uma novidade absoluta vindo não se sabe de onde para nos salvar. (MG)
+ Filamentos e rizomas: Um modo um pouco mais tangível para co-pensar (em vez de compensar=equilibrar) o trabalho de Latour (e outros) e Deleuze & Guattari talvez seja através de uma leitura menor da questão da (a)filiação/aliança no Anti-Édipo, desaguando no conceito de rizoma e um tema menor em Latour, que justamente deixa ‘esquecer’ a questão maior e algo insolúvel da ‘modernidade:’ isto é, o actor-network theory (ANT) e o conceito de filamento. Conexão feita, precisamente, por Latour mesmo: “Put too simply ANT is a change of metaphors to describe essences: instead of surfaces one gets filaments (or rhizomes in Deleuze's parlance (Deleuze and Guattari, 1980).” Deste ponto (que oferece, a meu ver, uma saída mais produtiva, ativa, criativa para o impasse de cultura/natureza - que a antropologia simétrica sensu Latour sempre procura evitar, noto de passagem, como aspecto metodológico), Latour e outros têm desenvolvido uma ferramenta potente para mapear as inclusões e conexões menos óbvias de qualquer ‘tópico’ que queremos apreender, junto com a exclusão do óbvio demais (mas de fato não conectado). Por exemplo: “…an Alaskan reindeer might be ten metres away from another one and they might be nevertheless cut off by a pipeline of 800 miles that make their mating for ever impossible…” Mas, diferente dos conceitos de D&G, o ANT falta algo: justamente os conceitos de expressividade, transcodificação, devir, afeto, aspecto, qualidade, etc. que ‘vibram’ nesses (não)espaços de filamentos. De novo, algo apontado por Latour: “ANT is a powerful tool to destroy spheres and domains, to regain the sense of heterogeneity and to bring interobjectivity back into the centre of attention […]. Yet, it is an extremely bad tool for differentiating associations. It gives a black and white picture not a colored and contrasted one.” Sugiro que essa falta/ausência vem da exclusão a priori do molar, o esquecimento-passivo (ver supra de APL), no trabalho de Latour. Mas é apenas uma idéia 'cromática,' digamos. (David Rodgers) p.s. Latour source: [1]
Por que “antropologia”?Na Sexta na Quinta desta sexta passada, quando rolou a discussão livre sobre a noção de simetria e seus equívocos pilotada por Goldman, alguém (creio que Lilia Valle) levantou a questão, ou algo como uma questão, a respeito da utilidade, sentido ou propósito de se continuar usando a palavra “antropologia” para descrever o que estávamos propondo, ou fazendo. Ocorreu-me (acontecimento delicado) agora que uma das possíveis únicas razões, para além de um saudável amor à tradição, seria assumir que “antropologia” não significa mais a “ciência do Humano” no sentido de discurso que desvelaria o logos ou essência do Humano — mas apenas “ciência feita pelos Humanos”, modo de pensar-agir dos humanos quando entram em relação reflexiva consigo mesmos. ”Ciência dos humanos”, então, como quem diz: “religião da Grécia antiga“, “física cartesiana”, “linguagem dos golfinhos“, “teoria arquitetônica dos joões-de-barro”, “botânica própria dos beija-flores“ e, crucialmente, “cinologia dos lobos”, “primatologia dos bonobos” etc. Etno(-antropo)logia. (evc)
Os avaros e os ladrões: eticidades cruzadasNa tese de doutorado de José António Kelly (Relations within the health system among the Yanomami in the Upper Orinoco — Cambridge 2003), acha-se uma observação sobre a equivalência moral entre a avareza como negação da troca para os Yanomami e o roubo como negacão da propriedade para os Brancos. Em minha modesta opinião, esta é uma daquelas idéias brilhantemente óbvias— que parecem óbvias ou já-tidas depois que outrem as teve. Acho que seria possível escrever todo um ensaio etnofilosófico sobre essa equivalência. A avareza e o roubo são, com efeito, as duas figuras do negativo que definem a contrario as macro-socialidades do Dom e da Mercadoria, ao designarem respectivamente a figura do Mal que ronda estas duas formas. Imagine-se uma sociedade onde os ladrões fossem censurados moralmente (e de leve) mas não fossem punidos legalmente (até aqui, poderia ser o Brasil), ao passo que (aqui muda) os avaros seriam vistos como criminosos e condenados a uma dura reclusão carcerária. O contrário do que se passa no mundo capitalista, em suma. Neste último, com efeito, a avareza é apenas um vício privado, relativamente menor, que não deixa aliás de ter grandes virtudes públicas (a sobriedade, a poupança, a acumulação) [mas nunca entre parentes - aqui não é o limite da sua possível virtude? não se pode estabelecer relações mercantis entre parentes, um ponto importante na história do parentesco e capitalismo occidental -djm]. O roubo, pelo contrário, é um crime, algo que fere a “constituição” (sensu Latour) do socius em seu âmago; roubar é atentar contra a base sobre a qual se ergue a sociedade: a propriedade privada. Todo crime é um roubo, e todo ladrão, em suma, é um comunista. Nos Yanomami, toda sovinice é uma declaração de não-parentesco, e todo avaro é uma alma penada. Cada socialidade tem o anti-Ego que lhe cabe. Logicamente, portanto, para os Brancos, os Yanomami eram ladrões consumados; para os Yanomami, os Brancos eram avaros modelares. Os “amigos do alheio” contra os “amigos do próprio”.
The Yanomami consider the extractivists [madeireiros etc. que atuam na área] stingy; the latter clearly disapproved of having their objects stolen [pelos Yanomami]. The point is that, for the Yanomami, the negation of exchange is the moral equivalent of theft for the criollos which is why it is equally disturbing. To share what you have is a prime moral dictum for Yanomami, stinginess a terrible amoral quality. It is the one condition considered when a dead person’s soul is on its way to the sky where souls live happily. The stingy must take another path towards a huge blaze, the shopari wakë (cf. Lizot). Non-sharing is anti-sociable, signifying a desire not to enter into convivial relations. [Por sua vez,] for extractivists and doctors [os médicos que Kelly observava] alike, it is the entrenchment of private property as an essential right that is a condition to ‘live in society.’ Under these premises theft is an equal negation of the desire for conviviality. (evc)
A observação é realmente interessante. Uma equivalência parecida pode ser detectada nos Xikrin e Kayapó. Na tese, tentei recolocar a etnografia Kayapó no quadro descritivo-conceitual mais geral da Amazônia indígena (questão da "predação ontológica", da afinidade potencial/virtual como condição para a contituição do parentesco local; enfim, questões trazidas à tona por Bruce Albert, Eduardo, etc.). Mas eu argumentava que a expressão substantiva desse "modo" de operação/imaginação sociocosmlológica no caso kayapó ganhava uma certa inflexão: não se tratava, evidentemente, dos sistemas guerreiro-canibais amazônicos. Nos Kayapó, algo que poderíamos chamar de "roubo" é que aparece como signo da relação com o "virtual/potencial" e não o canibalismo. E de fato, sabe-se da importância do tema do ‘roubo’ em um conjunto de mitos: roubo do fogo da onça, roubo do milho, roubo de adornos (Vidal 1977; Wilbert 1978, 1984). Vanessa Lea (1986, 1992) insistiu na questão do roubo de nomes e prerrogativas rituais. Registre-se também o ótimo ensaio de Tony Seeger (1993) sobre o roubo praticado pelos índios Suyá contra a expedição de von den Steinen. Não foi à toa, então (de fato, me parece uma ‘tradução’ em idioma do senso comun diante da percepção de uma determinada forma de relação), que entre os (brancos) regionais da bacia do rio Itacaiúnas, onde viviam os Xikrin: “un stéréotype courant dans la région les dépeint comme des voleurs” (Caron 1971:17). Por outro lado, seguindo com a equivalência, entre os Xikrin e os Kayapó, a avareza (õ djö = 'avaro, mas tb. acrimonioso, intragável, acre') é um defeito moral imperdoável, levantando suspeitas e críticas. Assim como a agressividade desmedida ("surda"), a sovinice pode aparecer aos índios como índice de negação dos laços de parentesco. É um sinal de ‘pequenez’, sendo oposta à generosidade (õ djàj = 'generoso, mas tb. agradável, palátavel, saboroso'), que é vista como atributo essencial de pessoas boas (mejx). De maneira previsível, os brancos são tido como os avaros por excelência. Entre os Xikrin é recorrente o comentário sobre a ‘falta de parentesco’ entre os brancos, sua incapacidade de partilhar (porque são sovinas), a sua falta de vergonha, a seu excessivo apego ao dinheiro e aos objetos, a forma como são insensíveis aos sentimentos de outros brancos, deixando-os passar fome, por exemplo. Resumindo, portanto, talvez desse para dizer que o "roubo" (fora) é a própria condição de existência dos "coletivos" Kayapó, ao passo que a "avareza" (dentro) marca seu limite. (provisório: CG) --- --- As socialidades virtuais da internet seriam um caso exemplar para levar adiante esta intuição--um exemplo do "struggle over meaning" que um tipo da antropologia atual tanto gosta junto com a ontologia comparativa dom-mercadoria cara a outro. Os representantes da propriedade empenhados em caracterizar várias tecnologias (napster etc) e seu uso como roubo e sério atentado aos valores da criatividade e possessão individual (inclusive com punição severa de reclusão--ie, retirada da "sociedade"); já entre os usuários vigora uma ética de troca onde "not sharing" e a falta de reciprocidade acarreta a censura mais séria (inclusive a expulsão das redes). Um campo rico para explorações da maneira "in which entities are made into objects when they are seen to assume a particular form," que por sua vez indica as propriedades pelas quais são conhecidas (e, acrescentaríamos consumidas/trocadas), além da maneira pela qual "entities are made into objects through the relations people have with one another." (Strathern, Property, Substance, Effect p 13). Não se trataria mais de comparar, aqui, dois modos distintos de eliciar forma (Melanésio e Ocidental) mas o choque entre duas conceitualizações do mesmo (?) processo. E o que está em jogo, é, justamente, a forma que tais entidades vão assumir, e portanto, as relações específicas que vão obter. Uma luta ontológica digna da Guerra dos Mundos! Não tem alguém no PPGAS que estuda exatamente este tema?... -djm
-evc
Lembrando ainda que em Molière (1668 ?) o avaro e o ladrão se fundem e se replicam de forma genial na derrisória figura de Harpagon (o avarento). -c Para quem nunca leu, de graça aqui: [2] (francês) ou [3] (inglês). Indispensável...
"La flèche que les uns ne voient pas partir, les autres la voient arriver"Essa frase absolutamente genial do Esboço de uma teoria geral da magia (p.88 de Sociologie et anthropologie) me suscitou a seguinte hipótese, a ser classificada na subseção (a criar) destas Abaetitudes intitulada "Idéias óbvias, absurdas, e às vezes ambas". Mas enfim:
O Arqueiro Metafísico. Por uma antropologia incognitivaSe o chamado cognitivismo é hoje o ponto estratégico de enunciação do discurso antropológico sobre a Natureza Humana, então toda antropologia que se recusa a partir desse fim será forçosamente uma antropologia incognitiva. Assim como toda antropologia que se recusa a concluir pela identidade como princípio será uma antropologia do incógnito, daquilo que não conhece identidade. Donde a conexão -para andarmos depressa - entre a antropofagia como antropologia incognitiva e o devir-imperceptível extra-identitário como modo de transsubjetivação. Sobre o conceito de Avoir em Tarde"'Toute la philosophie s'est fondée jusqu'ici sur le verbe Etre, dont la définition semblait la pierre philosophale à découvrir. On peut affirmer que, si elle eût été fondée sur le verbe Avoir, bien des débats stériles, bien des piétinements de l'esprit sur place auraient été évités. - De ce principe, je suis, impossible de déduir, malgré toute la subtilité du monde, nulle autre existence que la mienne; de là la négation de la réalité extérieure. Mais posez d'abord ce postulat: "J'ai " comme fait fondamental, l' eu et l' ayant sont donnés à la fois comme inséparables." (Tarde, Monadologie et sociologie ed. Empêcheurs 1999 p. 86) Proponho traduzir o Avoir tardiano como Haver, não como Ter. Sugiro assim as noções de havência e de havente. A havência é a potência do evento, a preensibilidade do que ocorre. O havente é o superjeto de Whitehead. Contra o ente e o agente, o "hajente", isto é, o havente, e seu havido. A bela expressão "haver no sentido de existir"... (A propósito, Bia Perrone-Moisés comentava-me um dia sobre a ausência do verbo estar nas línguas "filosóficas" modernas, alemão, francês, inglês, todas limitadas ao ser. O haver e o estar, então, contra o ter e o ser.) --Eduardo 02:53, 19 Jul 2005 (UTC) Aliás, sobre verbos filosóficos, traduções interpretativas e o intraduzível em geral (i.e. o que não se acaba nunca de traduzir), ver Parmênides, trad., ed. e introd. de Barbara Cassin, Sur la nature et l'étant. La langue de l'être?, Seuil "Points" 1998. (EVC) O veneno relativistaPensar as referências constantes ao relativismo como uma espécie de veneno, algo que exige 'antídotos', no contexto da 'definição' de veneno dada em Le cru et le cuit (pp. 281-87): algo que curto-circuita a divisória Natureza/Cultura. O veneno é a natureza inserindo-se diretamente na cultura, produzindo sua indiscernabilidade, compenetração e isomorfismo. O uso do veneno é, para a filosofia indígena, 'um ato cultural diretamente engendrado por uma propriedade natural'. Daí a associação do veneno com a figura do sedutor, elaborada nos mitos. Se é assim, compreende-se melhor as seduções ou "tentações" (Hollis & Lukes p. 1) do relativismo, corruptor da juventude [ver Herrnstein-Smith sobre o socratismo anti-sofístico nesse contexto]. Só que o relativismo seria um veneno funcionando em sentido inverso: intrusão violenta da cultura no seio da natureza, com os atos (representações) culturais engendrando diretamente a ordem natural. Associar o cromatismo do veneno com a acusação do 'vale tudo' ('anything goes' : Feyerabend) feita ao relativismo (tb. in Herrnstein-Smith). Cromatismo ou, também, mundo podre, noite eterna dos gatos pardos, confusão; por contraste com a iluminação diurna da razão, mestra do descontínuo, etc., cuja vigília excessiva - o mundo queimado - impede o sonho noturno etc. E de como a contraprova antirelativista por contradição pragmática é um fazer o relativista 'provar do próprio veneno'... O relativismo é assim um metaveneno ou mais bem uma droga, alucinógena e viciante. Ver O Veneno Pirrônico de Renato Lessa; ver as referências humorísticas ao derridium e ao lacanium feitas por Latour em sua réplica a Sokal & Bricmont (in F. Cusset, French Theory, p. 17). Sócrates, este Don Juan filosófico, corruptor da juventude, que faz pouco da religião da polis, um sedutor em suma, um relativista, condenado a morrer - por veneno, por coincidência. Ver por fim e obviamente, o pharmakon platônico-derridiano. Alguém tem mais alguma sugestão sobre essa relação veneno/relativismo? [1] Gratos --Eduardo 17:44, 18 Jul 2005 (UTC) Ainda sobre o veneno relativistaNas últimas manhãs, dois dias (hoje foi um) acordei com uma divagação na lembrança, estimulada pelas notas acima. • primeiro, o paradoxo levistraussiano do bárbaro foi batizado o paradoxo do relativismo: a barbárie era a desunião que veio determinar a união -> o veneno virado do avesso; • depois, o paradoxo do relativismo cultural: a Cultura Humana (essa boiuçu) era a conjunção que determinava a disjunção -> o veneno propriamente dito; • com certeza, a cobra boiuçu, que um dia mostrou-se disposta a ensinar a escrita (diz um fragmento de mito Munduruku, mencionado entre M184 e M185 de O Cru e o Cozido), é afugentadora de Espíritos (como a simples palavra <batata> de M162). • agora, curiosamente, nesse novo regime da cicuta, a situação (além das elaborações secundárias permitidas pelas luzes) também evocaria a falta de bom senso, mas virada pelo avesso, uma vez que se tenta destruir a cobra boiuçu a fim de montar ao tempo em que ninguém terá suas vestes e suas flautas. • o mundo úmido e podre do relativismo dar origem ao mundo queimado e gélido da reflexividade - era só o que faltava, francamente! • antes de morrer, um velhinho, quente ainda do calor de um curral de bois, escreveu sobre doença contagiosa, sobre luto e o filtro da morte:
• com os seus clarões próprios, o petróleo assim nos restituiria o timbó. • o veneno relativista parece mesmo oferecer-se como uma das nebulosas da antropologia simétrica. Passo a palavra... TSL 22:10, 27 Jul 2005 (UTC)
I was angry with my friend: I told my wrath, my wrath did end. I was angry with my foe: I told it not, my wrath did grow. - And I water'd it in fears, Night & morning with my tears; And I sunned it with smiles, And with soft deceitful wiles. - And it grew both day and night, Till it bore an apple bright; And my foe beheld it shine, And he knew that it was mine, - And into my garden stole When the night had veil'd the pole: In the morning glad I see My foe outstretch'd beneath the tree. (William Blake, A poison Tree, 1794)
Se não é a cobra venenosa, é a cobra tentadora, que expulsa os humanos do Paraíso universalista, dando-lhes a comer da árvore do conhecimento, isto é, do relativismo. Mas o sedutor-tentador, como CLS já demonstrou, é intimamente ligado ao veneno, e ambos ao cromatismo relativista.(EVC)
A propósito do(s) mundo(s)"There is no line between the 'real world' and 'world of myth and symbol.' Objects, sensations, hit with the impact of hallucination." -William S. Burroughs |
