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Saúde da População Negra: o PAF como exemplo.

Saúde da população negra.



O ano de 1995.



No ano de 1995, influenciado pela Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, pela Igualdade, pela Vida, o Governo Federal, sob a égide do então presidente Fernando Henrique Cardoso, como ato de reconhecimento oficial da existência do racismo no Brasil, cria o Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) para a Valorização da População Negra. Valorização, ato que não deveria se limitar, segundo defensores, a medidas de promoção da cultura negra e punições mais severas para atos públicos de racismo, deveria ser capaz de alcançar as menores instancias, territórios, onde fosse constatado qualquer movimentos de discriminação negativa. É neste contexto que o subgrupo de saúde do supracitado GTI organiza - Brasília, primeiro semestre de 1996 – a Mesa Redonda sobre a Saúde da População Negra. Evento que mobilizou membros da comunidade científica, militantes da sociedade civil, médicos e técnicos do Ministério da Saúde em torno de uma controvérsia: no campo da saúde pública, o conceito de raça possui alguma relevância científica?



Ainda que não tenho sido promotor de consenso, o evento gerou um documento-síntese preliminar, a ser, esperava-se, retomado e revisado por estudos posteriores, propondo o reconhecimento de quatro blocos de doenças que afetam a população negra:



O primeiro bloco é o grupo de doenças geneticamente determinadas. São doenças que têm origem hereditária, ancestral e étnica. Nesse grupo destaca-se a anemia falciforme, por ser uma doença que incide predominantemente em afro-descendentes. Também são doenças ou agravos desse grupo a hipertensão arterial, o diabetes mellitus e uma forma de deficiência de enzima hepática, a glicose-6-fosfato desidrogenase, que incidem em outros grupos raciais/étnicos, porém são mais graves ou de tratamento mais difícil quando acometem pretos e pardos.



O segundo bloco é o conjunto de ocorrências, condições, doenças e agravos adquiridos, derivados de condições socioeconômicas e educacionais desfavoráveis, além da intensa pressão social: alcoolismo, toxicomania, desnutrição, mortalidade infantil elevada, abortos sépticos, anemia ferropriva, DST/Aids, doenças do trabalho e transtornos mentais.



O terceiro bloco é constituído por doenças cuja evolução agrava-se, ou o tratamento é dificultado, pelas condições negativas anteriormente citadas: hipertensão arterial, coronariopatias, insuficiência renal crônica, cânceres e miomas. Isto quer dizer que, apesar de incidirem em toda a sociedade, essas doenças se tornam mais graves na população negra devido às carências econômicas, sociais e culturais às quais esta submetida.



O quarto bloco é o conjunto de condições fisiológicas que sofrem interferência das condições negativas anteriormente mencionadas, contribuindo para sua evolução para doenças: crescimento, gravidez, parto e envelhecimento. Equivale a dizer que esses quatro fatos biológicos naturais, quando são afetados pelas condições negativas mencionadas, constituem, para grande parcela da população negra, situações de risco para o aparecimento de doenças. (Cardoso, 1998).



Contudo, o mesmo documento destacava a inexistência de consenso técnico-científico capaz de fundamentar a criação\promoção de programas governamentais de saúde específicos para a população negra - novas pesquisas e metodologias seriam necessárias antes de um parecer definitivo. Por ora, nada mudaria, a responsabilidade de combater tais agravos ainda continuava nas mãos dos SUS em políticas voltadas para uma população brasileira no geral, livre de qualquer recorte racial. Porém, em razão de "ser uma doença incidente predominantemente sobre a população afro-descendente e já contar com sinalizadores estatísticos suficientes e convincentes para justificar sua prioridade como problema de saúde pública" (Ibidem), uma concessão excepcional seria feita a anemia falciforme, instituindo-se um programa específico de combate a doença em âmbito nacional, o Programa de Anemia Falciforme (PAF).



Programa de Anemia Falciforme do Ministério da Saúde – PAF/MS



O PAF tinha por objetivos: oferecer diagnóstico neonatal a todas as crianças nascidas em hospitais; ampliar o acesso aos serviços de diagnóstico e tratamento de boa qualidade aos portadores; estimular o apoio às associações de falcêmicos e às instituições interessadas na pesquisa da doença; elaborar um sistema nacional de registro de portadores de anemia falciforme; produzir material educativo; capacitação de recursos humanos e implementação de ações educativas sobre questões referentes à bioética, para que o teste de anemia falciforme somente seja realizado após o consentimento livre e esclarecido. (Roland, 2001).



Importante notar que a médica e militante Fátima Oliveira chama a atenção, em artigo publicado na coletânea “O livro da Saúde das mulheres negras”, para possíveis apropriações negativas do programa:



Pensar um Programa de Anemia Falciforme para um país de tamanho continental como o Brasil, recortado por diferenças culturais, sociais, econômicas e raciais, onde historicamente aos negros foram reservados espaços físicos e sociais mais inóspitos, implica em pensar como as questões de bioética intrínsecas ao diagnóstico genético podem contribuir para ampliar, cercear ou diminuir o processo de construção de cidadania das pessoas que vivenciam no seu cotidiano as mazelas do racismo” (Oliveira, 2002, p.160).



O alerta de Fátima Oliveira deve ser entendido a partir da experiência norte-americana, onde ocorreram tentativas de se implementar um programa de testes obrigatórios à cidadãos negros e vetou-se o acesso a determinadas carreiras profissionais aos portadores do traço falciforme (cf. Tapper, 1999; Wailoo, 2001). No Mississípi, mais especificamente, a legislação permite ao conselho estadual de saúde implementar programas de testes para anemia falciforme entre pessoas que, “pela raça ou grupo étnico, sejam consideradas particularmente suscetíveis à doença”. (Tapper, op.cit, p. 121).



No Brasil, ainda que promovido pelo GTI para a Valorização da População Negra e apoiado pelo Ministério da Saúde, o PAF nunca se concretizou, foi um “programa que não saiu do Papel” nas palavras de uma de suas promotoras, a militante Edna Roland. Ainda que, verdade seja dita, alguns estados tenham adotado isoladamente programas inspirados pela agenda do PAF, o próprio nunca obteve a dimensão nacional prevista pelo subgrupo de saúde e pretendida pela militância (Oliveira, 2004, p.324-5). As razões para o fracasso são apontadas por Roland (2001): apesar do aparente apoio, o que se observou na prática foi o descaso do Ministério da Saúde em estimular os governos estaduais a implementarem o PAF; a falta de um monitoramento intenso por parte dos movimentos sociais de promoção da saúde da população negra, aspecto fundamental, segundo a autora, para que as desejadas políticas focalizadas sejam transformadas em realidade. Ainda, a argumentação de Roland vai além, sugerindo preconceito institucional com “doença de negro”: embora tenha sido diagnosticada em 1910, o número de pesquisas científicas e politicas focalizadas voltadas para a síndrome ainda são mínimos se comparados aos recursos dispersados para o combate a AIDS e, para citarmos outra hemoglobinopatia, a hemofilia. Segundo a autora, a diferença esta sobretudo no incentivo governamental, que destina recursos a formação de quadros profissionais capacitados para o trabalho com portadores destas doenças ao passo que historicamente ignora a anemia falciforme.



Justamente, uma das principais reclamações dos membros da Associação de Falcemicos e Talassêmicos do Estado do Rio de Janeiro é a falta de quadros profissionais qualificados na rede pública de saúde. Situação que ganha contornos ainda mais críticos frente aos constantes relatos de que ao procurarem hospitais filiados a rede durante episódios dolorosos (ver abaixo), situação que exige aplicação emergencial de medicamentos da família dos opioides (morfina), não são atendidos por serem tomados por toxicômanos (Calheiros, 2005).



Somente em junho de 2001, José Serra, Ministro da Saúde, instituiu, no âmbito do SUS, o Programa Nacional de Triagem Neonatal (PNTN), buscando a cobertura de 100% dos recém-nascidos vivos e incluindo doenças falciformes e outras hemoglobinopatias. O PNTN foi visto, por representantes do movimento negro, como uma medida de alcance limitado, quando comparado com a proposta original do PAF, e uma forma de diluir uma ‘conquista política` (Oliveira, 2002, p. 239-41). Da perspectiva da militância, o PAF não deve ser considerado um programa de saúde isolado, simples política compensatória, mas o primeiro movimento na direção do reconhecimento pelo estado do recorte racial enquanto campo de reflexão e de intervenção. O PAF tornou-se, nas palavras de Oliveira (2002, p. 238), “a conquista política mais importante do Movimento Negro na área da saúde”.



Na esteira da aprovação do PAF, em 1997, na gestão do então então Ministro Carlos Albuquerque, é definida a “Política de Saúde para a População Negro”, cuja primeira resolução foi a inclusão do “quesito raça/cor ... nos formulários oficiais, nacionalmente padronizados, de Declaração de Nascidos Vivos e de Declaração de Óbitos” (Roland, op.cit., p.5). Por falta deste quesito, argumenta o hematologista Paulo Ivo, especialista em Anemia Falciforme, “gerações inteiras não souberam de seus problemas”; o quesito raça/cor seria essencial para a continuidade das pesquisas de saúde pública comprometidas com o recorte racial.



Ciências e sindromes falciformes.



A doença foi descrita pela primeira vez pelo médico norte-americano James B. Harrick em 1910. Estudando o caso de um jovem caribenho negro, Harrick percebeu que suas células vermelhas eram “anormais, alongadas e de formato peculiar”, observação que o levou a arquivar o caso a anormalidade sob o título “Peculiar Elongated and Sickle-Shaped Red Blood Corpuscles in a Case of Severe Anemia”. Somente em 1922, através de emergentes técnicas de análise laboratorial, que outro médico, Victor E. Emmel, em artigo publicado no Journal of the American Medical Association, autentificaria a descoberta de Harrick e cunharia o termo sickle cell anemia. Nota-se que a doença surge como uma moléstia exclusiva da população negra: “it is of particular interest that up to the present the malady has been seen only in the negro, and, so far as could be ascertained, it is the only disease peculiar to that race” (Mason apud Tapper, 1999, p.13)¹. 




(1) Se a intenção deste trabalho fosse a de contextualizar as observações científicas de Mason, recorreriamos ao historiador David McBride. Segundo o qual, na primeira metade do século XX a medicina consistia fundamentalmente em um “sociomedical racialism”, pressuposto de que doenças e outras “anormalidades” poderiam ser entendidas em termos anatômicos e raciais. Para uma crítica ao método de contextualização tão típico de historiadores da ciência, ver Stengers (2002)




Nos Estados Unidos, até a década de quarenta, a doença fora tratada como um verdadeiro marcador racial. Fry, utilizando-se do trabalho de Tapper, argumenta que “a teoria da relação entre o corpo negro e a anemia falciforme era tão hegemônica e inquestionável que ‘elaborações secundárias’ eram invocadas para preservar a teoria perante fatos que a contradiziam. Cada vez que a prática parecia contradizer a teoria, os ‘fatos’ eram modificados para poupar a teoria.” (Fry, 2005). Desta forma, quando brancos eram diagnosticados com a doença - fato raro, porém verdadeiro -, logo surgiam dúvidas acerca da herança genética do indivíduo ou a respeito do método utilizado para testar o sangue do paciente. Situação que perdurou mesmo após descobertas científicas que a colocavam em cheque, como a descoberta do sistema de transmissão mendeliana (ver abaixo) da doença feita por James V. Neel e E.A. Beet em 1949 e a chamada “Primeira Declaração sobre Raça” em 1950 (cf. Santos 2006). Tapper observa que “eugenics and genetics did not exclude one another, but rather oftem co-existed or even fused so as to produce a new and powerful racialist antropology that was informed – and authorized- by the language of molecular biology” (Tapper, 1999: 40).



Este quadro serviu de base para que, já nos anos 70, a anemia falciforme continuasse sendo considerada uma “Black Related Disease”, ou seja, nos termos do médico Richard Willians, “not only those illnesses to witch Black in particularly prone, but also those conditions to witch Blacks manifest an unusually severe or indiosyncratic reactions” (Willians, 1975). Destarte, no bojo das lutas pelos direitos civis da população afro-americana, o combate a doença foi eleito como símbolo da correção de uma história de segregação e descaso para com a saúde da população afro-descendente.



Atualmente, a doença é objeto de quatro agenciamentos metodológicos distintos: biologia molecular, medicina clínica, antropologia biológica e genética.



No contexto da biologia molecular é especificamente uma mutação capaz de produzir uma deformação na hemoglobina: perda da forma discoide, enrijecimento e afoiçamento. Alongadas e deformadas, as células são incapazes de transportar adequadamente o oxigênio e nem sempre são capazes de atravessar os pequenos vasos, bloqueando-os e impedindo a circulação do sangue nas áreas ao redor. Pesquisadores atuais, distinguem cinco mutações possíveis para a doença: “mutação tipo Senegal, tipo Camarões, tipo Benin, tipo República Centro-Africana (também chamada tipo Banto) e tipo Árabe-Indiano “ (Pena, 2005).



A medicina clínica, como lhe é habitual, ocupa-se menos com a origem e conceitualização da doença do que com suas consequências manifestas. Ainda que seja de sintomatologia variada, de indivíduos crônicos à assintomáticos, algumas manifestações clínicas podem ser consideradas mais comuns entres os portadores da patologia:





1. Vaso-oclusivo (episódio doloroso)

Manifesta por ataques episódicos de dor, com frequência maior nos ossos e as articulações das mãos e dos pés (especialmente crianças), braços e pernas, costas e tórax, ou no abdome. Consequência da obstrução de pequenos vasos sanguíneos (vaso-oclusão) pelos glóbulos deformados, privando áreas adjacentes de oxigênio e, consequência, lesionando o tecido. Ainda que na maioria dos casos o episódio doloroso não esteja associado diretamente a uma causa específica, pesquisas recentes indicam que infecções, fadigas, febres, desidratações e até mesmo exposição ao frio podem desencadear crises. Atualmente, não existe qualquer medicação preventiva para evitar ou parar um episódio doloroso logo no seu início.



2. Icterícia (olhos amarelos)

Causada pelo aumento dos níveis de bilirrubina (produto resultante da quebra da hemoglobina) na corrente sanguínea. Pode causar dor abdominal e vômitos em crianças; é comum que portadoras de anemia falciforme apresentem cálculos biliares.



3. Problemas ósseos e nas articulações

Crânio, ossos longos, vértebras e grandes articulações podem sofrer necrose asséptica (morte do tecido não relacionada à infecção). O processo geralmente acontece a partir dos cinco anos de idade, sendo mais comum entre indivíduos de idade avançada.



4. Acidente vascular cerebral (AVC)

Cerca de 6% das crianças portadoras da doença sofrem AVCs, com tendência que o evento se repita ao longo de sua vida.



5. Sequestro esplênico

Grande quantidade de sangue é retida no baço do indivíduo, tornando-o pálido e fraco, o abdômen fica distendido e dolorido. A complicação envolve risco de morte, exigindo intervenção médica emergencial. No geral. ocorre em crianças com menos de cinco anos.





Nos termos da genética, a exemplo da biologia molecular, a doença é resultado de uma mutação. Contudo, menos interessado naquilo que a mutação produz, a genética se preocupa com os mecanismos de transmissão (genética) da doença, classificando-o como um caso típico de herança mendeliana. Em outras palavras, o indivíduo que herdar o gene de apenas um de seus pais, heterozigoto, é considerado como portador do traço falciforme, assintomático. Apenas indivíduos homozigotos, herdeiros do gene tanto por parte do pai quanto por parte da mãe, são considerados como portadores da hemoglobinopatia e sujeitos de suas complicações.



Por fim, para a antropologia biológica, a anemia falciforme é o resultado direto de uma adaptação a malária falciparum, endêmica na Africa Ocidental, Grécia, sul do Mediterrâneo e sul da índia. Justamente, atribui-se a esta relativa resistência de indivíduos portadores do traço falciforme a malária o papel de força motriz da sobrevivência desta mutação nas populações.


Cientistas sociais interessados pela doença e, sobretudo, por sua associação com a população afro-descendente, como Duster (1990), Tapper (op. cit.) e Fry (2005), tendem a uma interpretação “essencialista” deste quadro: quatro diferentes discursos, com graus diferentes de verdade, sobre o que a priori seria um mesmo objeto. Ao fazê-lo, ignoram toda uma vertente dos estudos científicos, mais especificamente, uma sub-área dedicada aos “estudos de doenças”, como o trabalho de Cussins (1996), onde, com todos os rigores que uma investigação sociológica da ciência demanda, abandona-se o fantasma da coisa em si em favor da ideia de que múltiplas perspectivas produzem objetos múltiplos, não versões de um mesmo objeto.



Em tempos de racialização?



Opositores ao PAF afirmam que o programa não passa de uma “política de identidade”, exemplo cristalino do esforço da militância para racializar uma doença, produção, nos termos de Fry (2005), de uma “imagem da ‘população negra’ que é muito mais que a soma dos indivíduos que se definem como ‘pretos’ ou ‘pardos’ nos recenseamentos nacionais”. Transformando esta população em uma “etnia”, constituída por uma herança biológica e cultura compartilhada”. Segundo o cientista político e especialista em estudos raciais, Marco Chor Maio (2006), a proposta do PAF e programas do mesmo gênero libertam a categoria raça do rótulo de construção social, fruto das assimetrias e iniquidades criadas pelo racismo, naturalizando-a mediante o uso de evidências oriundas do discurso médico-científico².




(2) Transcrição da fala de uma sacerdotisa da Tradição de Orixá ocorrida no I Seminário de Saúde da Mulher Negra: reavaliando a historia e repensando o futuro, ocorrido em 2003 na cidade de São Paulo:



Eu sou uma sacerdotisa da Tradição de Orixá. A tradição de Orixá é o pai e a mãe, a gênese, do candomblé brasileiro. É uma religião que vem da Nigéria... e eu sou conselheiro do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra. Mas é interessante quando dizem: “Nossa, mas você é branca” ...E eu digo: “meu traço falciforme que o diga!”.(Maher, 2005)




Segundo os mesmos, a descoberta da lógica mendeliana da doença deveria implicar no reconhecimento de que qualquer brasileiro, independente de ser branco ou negro, pode ser herdeiro da doença. O argumento é embasado pelo famoso Retrato molecular do Brasil, artigo de 2000 escrito por Pena e colaboradores, e estudos similares onde a antiga crença na natureza tri-híbrida da população brasileira, produzida a partir de material ameríndio, europeu e africano, adiquire relevância científica, como indica a o trabalho de Fry: “Mais recentemente, os geneticistas J. Alves-Silva e Sérgio Pena, entre outros, têm demonstrado que pelo menos 40% dos marcadores detectados naqueles brasileiros que se auto-declaram brancos são de origem africana. Embora a anemia falciforme apareça, de fato, com mais frequência em populações de pessoas com fenótipo mais ‘africano’, ela se encontra também em pessoas que em nada parecem afro-descendentes.(ibidem); ou o trabalho de Zago (2004, p. 370): “embora predomine ainda entre os afro-descendentes, a miscigenação crescente vai fazendo dela uma doença sem vínculo claro com a etnia”.



Como alternativa, no lugar da etnia, os pesquisadores propõe que se ressalte o aspecto geográfico da anemia falciforme, que não “só ocorre frequentemente em populações não-negras e fora da África, mas também foi observado que a mutação... não é vista em muitas populações da própria África, coincidindo com as regiões geográficas nas quais a malária não é endêmica”, afirma o geneticista Sérgio Pena (2005), que conclui: a anemia falciforme não é uma ‘doença de Negros’ nem uma ‘doença africana’, mas sim uma doença eminentemente geográfica, produto de uma bem sucedida estratégia evolucionária humana ”. Contudo, aos ouvidos dos militantes do movimento negro, associar a doença exclusivamente à aspectos geográficos, subsumindo sua relação com a população negra, soa como a substituição de cotas raciais por sociais, um processo capaz de negar a existência iniquidade entre brancos e negros no referido contexto, seja ele a saúde pública ou educação de nível superior. Uma transformação da velha máxima de que no Brasil não existe racismo.




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